Bom,
agora que estou debruçado sobre o papel, não sei bem por onde começar a
escrever, apenas sei que preciso expulsar algo preso dentro de mim e como não
me sinto bem em conversar com pessoas próximas sobre isso, cabe a mim gastar ou
converter uma boa quantidade de tinta de caneta em sentimentos e rancores nesse
papel amarelado que de alguma forma parece com as dores que sinto por dentro,
dores amareladas, anêmicas e que me enojam de forma muito particular.
Pergunto-me frequentemente por
quanto tempo devo ficar olhando para esse papel, isso só piora a situação e o
sentimento de mundo vago ainda vai percorrer meus pensamentos como uma cobra
que vaga na toca de um rato em busca da presa e essa presa é apenas o que me resta
dos meus pensamentos mais sensatos. Eu
olho em volta dessa mesa empoeirada e pela janela embaçada e vejo que nada faz
sentido do lado de fora, parece que estou de luto, congelado no tempo,
esperando esse momento obscuro passar para que eu possa voltar, mas no fundo
isso me parece uma utopia. Não queria falar do meu câncer nessa carta, se é que
posso chamar esse aglomerado de palavras que denotam rancor e pessimismo de
carta, mas acho que esse meu mal possa ser parte de tudo que esta acontecendo,
ou melhor, seria essa sociedade racista? Não...talvez...
Já passa das dez e ainda estou aqui
sem sono, fome, sentimento, sem um “EU” nem um “OUTRO”. Qual o motivo para o
destino ter me escolhido para tal sofrimento? Sinceramente eu fui derrotado um
round mais cedo e nem sei quando começou a luta... não, eu sei... Foi quando
essa maldita leucemia apareceu (ou foi quando a sociedade decidiu existir?),
essa coisa feita de dores me acerta em cheio desde quando tento me entender por
gente, sempre me nocauteado.
Nesse mundo os mentirosos são reis e
isso me deixa furioso, todo esse sentimento é apenas interno. Seria errado está
colocando tudo pra fora, eu me tornaria parte desse povo que só vive de duas
formas, os racista que imperam por terem míseros fenótipos e antirracistas que
tentam tomar o poder (roubar fenótipos?), somente isso, tomar o poder desses
imperadores para se colocar num lugar melhor, um lugar bem alto, alto
suficiente para poder pular caso não dê certo.
Os sons dessa cidade fazem minha
orelha queimar, como posso suporta tal forma de vida? Essa cultura parece não
me servir, estou fora desse plano, essa doença só pode ser uma forma de
castigo, Deus não dá asa à cobra, tudo faz sentido. Preciso afogar esses
traidores em água rasas... E agora me vejo mordendo meus lábios e percebo que
estou sendo um tolo novamente... e novamente começo a costurar os pontos, já
está fedendo, está inflamado e não sei onde encontrar um remédio pra isso...
Não falo da leucemia os remédios dela são suficientes.
Estou
sentido que preciso colocar tudo isso pra fora, algo parece me dominar pro
dentro, estarei louco em poucos dias se não fizer algo, uma atitude sensata é o
que eu preciso, mas a maldita cobra que ronda por dentro de mim não me deixar
fazer nada, mas vou além e procurar uma terapia, dizem que funciona, posso
tentar, já que não me resta muita escolha, esse demônio dentro de mim, essa
raiva é como ácido sobre meus órgãos. Eu já perdoei a morte.
* Carta escrita na disciplina de Humanismo. Objetivo: Ser...e incorporar o sujeito do caso de “RABIA Y DOLOR” (1977)